Aprender Mais que Ensinar

Oficina  “Essa é Minha Cultura” – 11 dias, 25 jovens, 112 horas de produção, 10 mini-documentários: Uma cultura de 183,9 milhões de brasileiros

“Eu entro, minha gente, eu entro. Com Deus e Nossa Senhora!” (1)

Com a cantiga acima os convidamos a entrar num mundo mágico, onde brincamos de ser Deus. Como ele,  temos o poder de criar. Dar à luz. Não a um ser humano à nossa semelhança… a árvores e animais, mas a uma fitinha onde nela cabem muitas histórias, vidas, conhecimentos: Maestria. A Oficina “Essa é Minha Cultura” é o momento da criação dentro do Projeto Maranhão na Tela. Alimenta sonhos, desperta esperanças e perspectivas em jovens ignorados pelo Poder Público, porém, incentivados pelas instituições do Terceiro Setor. Torna-os produtores.

Como colocar na pequena fita as experiências e sabedoria de dez mestres da cultura maranhense,  uma das metas da oficina? Um  trabalho que começou em agosto, quando sugerimos os nomes de 20 mestres maranhenses. Logo em seguida os jovens iniciaram a pesquisa sobre  os dez selecionados. Em outubro começa a oficina e sabemos ainda pouco uns dos outros. Nós ( eu e Caselli) dos jovens e eles de nós. Fomos  nos conhecendo aos poucos, assim como aos mestres sobre os quais os jovens continuam a pesquisar.  Assistimos a vídeos, filmes  clássicos e modernos selecionados por Caselli. Falamos sobre roteiro, narrativa, estética, tomadas de plano, movimentos de câmera. Os jovens saem às ruas, dão entrevistas para veículos de Comunicação. Começam a ser envolvidos pelo desejo de produzir.

Do roteiro ao  “Ação!”. Os jovens descobrem os mestres. As equipes são divididas e os roteiros preparados. As gravações começam. O ritmo é intenso, como o da maioria das produções audiovisuais. Duas equipes por dia saem para gravar. No dia seguinte à  gravação eles  decupam (selecionam as tomadas que estão boas para entrar no documentário) o material produzido. Entre erros e acertos, temos um material denso, que daria um longa-metragem sobre cada um dos mestres, tranquilamente. Transformar este material em 2 minutos que possam sintetizar o que estas pessoas se tornaram em décadas, e um: Mestre Apolônio, quase  em um século de vida, se  tornaria  o desafio para os editores Caselli e Mavi.

Com humildade continuamos a produção e entramos na Casa Fanti-Ashanti. Só  faltou pedir as graças dos orixás e encantados.  Com ela também  entramos no galpão do boi da Liberdade-Floresta, na Ramada das Velhas – do Péla de São Simão, no Herbário da universidade, na mata com Seu Gilson, na casa de Seu Tonico, no Atelier de Marlene, no Laborarte e no Centro  de Cultura Popular agarrados em Dona Zelinda.  Sempre acompanhados por Raíssa na produção do making of da oficina. Encontramos várias portas abertas. A cada entrevista um aprendizado. Lições dos jovens mestres e das  “Memória de  velhos”(2) mestres.  Os “nossos  jovens” ao   mesmo   tempo que entrevistavam, aprendiam sobre a cultura do Maranhão. A curiosidade era aguçada a cada pergunta. A concentração aumentava a cada dia, e aos poucos a consciência da importância deste trabalho tomava conta das equipes.

Começavam a tomar forma os dez mini-documentários  que serão veiculados na TV Brasil e Canal Futura e poderão ser assistidos ao menos por  dez milhões de espectadores em todo o Brasil em uma única exibição televisiva: O Maranhão na Tela de fato. Telinha e telona! Os vídeos serão exibidos de 01 a 06 de dezembro, na cerimônia de abertura, quando estarão juntos novamente jovens e mestres, e  durante o festival, antes das sessões dos longa-metragens.

A cultura do nordeste, parte grande deste país multicultural, mas que chega pouco ao conhecimento da maioria dos brasileiros invadindo as telas. Paralelo à  ignorância cultural dos centros produtivos do país, dos que possuem mais acesso ao conhecimento – moradores do sudeste e sul- muitos homens dedicaram a vida a tornar pública a riqueza cultural Centro- Norte-Nordeste. Câmara  Cascudo, Jorge Amado, Luiz Gonzaga, que saiu do sertão com seu baião e ganhou título de rei…Humberto Mauro(3). Como a cultura do interior de um Brasil 75% agrário pode ainda ser pouco conhecida de seu próprio  país?   Um Brasil Macunaíma(4) que tenta descobrir a cada dia a sua própria identidade. O Maranhão que não conhece o Maranhão. O Brasil que não desconhece o Brasil.  A cada edição da Oficina “Essa é Minha Cultura” o Brasil é descoberto. “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, dizia a poeta Cora Coralina(5). Aprender juntos: mestres, jovens, oficineiros.  Sabemos muito pouco  e  há muito  a descobrir neste imenso Brasil.  Somente conhecendo a cultura brasileira podemos valorizá-la, incentivá-la e protegê-la.

Certa vez uma jovem de Arari – Baixada Maranhense,  que participava das atividades promovidas pelo Instituto Formação,  disse: “ As caixeiras estão morrendo e nós jovens temos que preservar a nossa cultura. Se a gente não preservar o quê que vai acontecer com a nossa cultura?A nossa cultura vai morrer também.”  O que podem os jovens fazer com o conhecimento adquirido durante a oficina “Essa é Minha Cultura”, não somente o técnico, mas aquele que toca a sua subjetividade?  O que me  remete à primeira pergunta  feita por  um dos jovens da CEP-IB – na Vila Embratel, na edição da oficina este ano. “ E os jovens que fizeram a oficina ano passado… O que eles estão fazendo com o que aprenderam?”

A importância da oficina “Essa é Minha Cultura” para a divulgação e proteção da cultura de 183,9 milhões de brasileiros está justamente no fato dos jovens valorizarem a sua cultura e reconhecerem  que eles são responsáveis por difundi-la e preservá-la,  e uma forma de fazer  isso é através do audiovisual.  Hoje , mais do que nunca, é através do audiovisual que as informações circulam no mundo globalizado, via internet, televisão e cinema. Para difundir algo é necessário aprender algo, e assim o círculo se completa. Os jovens aprendem a produzir vídeos. Nós, o público,  aprendemos com os jovens que aprenderam com os mestres, que aprenderam com a vida. Cabe a estes 25  jovens agora decidirem o que vão fazer com o que aprenderam. Tem  a  vida toda para isso.” O saber se aprende com os mestres. A sabedoria, só com o corriqueiro da vida”(6)

(1)    Trecho de música do cd “Baião de Princesas”, gravado pelo grupo A Barca durante festejos da casa de culto Afro Fanti-Ashanti, sob coordenação do Babalaorixá  Euclídes Menezes, em São Luís-Maranhão.

(2) O projeto Memória de Velhos é uma contribuição à memória e à História Oral do Maranhão  e consiste na realização e publicação de entrevistas com pessoas ligadas à cultura popular maranhense. Já foram publicados cinco volumes e o sexto está no prelo. Esse projeto tem o objetivo de registrar aspectos da cultura popular  maranhense relatados pela voz dos mestres da cultura popular. O volume 1 de um dos livros que integram o projeto foi utilizado pelos jovens como fonte de pesquisa sobre os mestres Zelinda Lima, Humberto de Maracanã e Seu Apolônio.

(3) * Luiz Gonzaga nasceu em Exu, Pernambuco, em 1912. Foi um compositor popular. Aprendeu a ter gosto pela música ouvindo as apresentações de músicos nordestinos em feiras e em festas religiosas. Quando migrou para o sul, fez de tudo um pouco, inclusive tocar em bares de beira de cais. Mas foi exatamente aí que ouviu um cabra lhe dizer para começar a tocar aquelas músicas boas do distante nordeste. Pensando nisso compôs dois chamegos: “Pés de Serra” e “Vira e Mexe”. Sabendo que o rádio era o melhor veículo de divulgação musical daquela época, 1941, resolveu participar do concurso de calouros de Ary Barroso onde solou sua música “ Vira e Mexe” e ganhou o primeiro prêmio. Isso abriu caminho para que pudesse vir a ser contratado pela emissora Nacional e ganhasse projeção nacional.

**Luís da Câmara Cascudo,  historiador, folclorista, antropólogo, advogado e jornalista brasileiro de Natal, Rio de Grande do Norte. O conjunto da  obra de Câmara Cascudo é considerável em quantidade e qualidade: ele escreveu 31 livros e 9 plaquetas sobre o folclore brasileiro. Ninguém no Brasil, nem antes nem depois dele, realizou obra tão gigantesca com reconhecimento nacional e estrangeiro. É também notável que tenha obtido reconhecimento nacional e internacional publicando e vivendo distante dos centros Rio e São Paulo.

***Humberto Mauro não era nordestino e sim mineiro, mas levou para o cinema a vida do interior. Entre 1936 e 1967 foi o cineasta responsável pela realização de 357 filmes do Instituto Nacional de Cinema Educativo(INCE), criado pelo Ministério da Educação e Saúde de Gustavo Capanema e dirigido pelo antropólogo Edgard Roquette-Pinto até 1947. É possível assistir a 80  dos filmes produzidos pelo INCE, entre os acervos da Cinemateca Brasileira, em São Paulo e o CTAV – Centro Técnico Audiovisual da Funarte, no Rio de Janeiro.

(4) Em Macunaíma,  o escritor Mário de Andrade tenta escrever um romance que represente o multi-culturalismo brasileiro. A obra valoriza as raízes e a linguagem dos brasileiros. O livro inspirou a  obra-adaptada para o cinema, o filme   homônimo de 1969,  dirigido por Joaquim Pedro de Andrade,  com Grande Otelo e Paulo José.

(5) Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas( 1889),natural de Goiânia,Goiás. Foi poeta e contista brasileira. Mulher simples, doceira de profissão. Tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás. Os elementos folclóricos que faziam parte do cotidiano de Ana serviram de inspiração para que aquela frágil mulher se tornasse a dona de uma voz inigualável e sua poesia atingisse um nível de qualidade literária  jamais alcançado até então por nenhum outro poeta do Centro-Oeste brasileiro.

(6) Frase de Cora Coralina.

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