Macalé: de Gothan City para São Luís
Festival - 12.11.2009
A MPB vai muito além de Caetano e Chico, ou Gal e Bethânia, ou Gil e companhia. Muito mais do que os nomes que todos conhecem – basicamente vindos do Tropicalismo ou dos grandes festivais – nossa música gerou artistas diversos, e muitos deles exerceram influência fundamental no desenvolvimento do processo como um todo. Jards Macalé com certeza foi um deles.
Dono de um estilo de interpretação único, que desafia toda e qualquer definição possível, Macalé passou pelas mais variadas etapas da música popular. Como costuma se definir, “eu fui pré e pós-tropicalista”, máxima que demonstra por si só o quanto é irrotulável. Foi um dos participantes do lendário disco “Transa”, de Caetano Veloso, feito durante seu exílio em Londres; foi parceiro de dois poetas-chaves: Torquato Neto e Wally Salomão (com quem fez seu maior sucesso, “Vapor Barato”, muito conhecido na voz de Gal e do grupo Rappa); foi o sucessor natural do malandro clássico Moreira da Silva, entre outras proezas. Tudo isso - e muito mais – nos conta o documentário “Jards Macalé: Um Morcego na Porta Principal”, de Marco Abujamra.
O filme narra cronologicamente a história desse instrumentista único, que empresta sua voz rouca e debochada ao violão cativando qualquer platéia. Tentamos entender essa criatura, vaiada à exaustão num festival ao cantar a música “Gothan City”, mas que também foi responsável pelo projeto filantrópico “O Banquete dos Mendigos”, que reuniu diversos artistas brasileiros em prol da declaração dos direitos humanos – quer dizer, no documentário descobrimos que a coisa não foi tão filantrópica assim...
A narrativa segue com situações interessantes e por vezes hilárias. Uma delas foi quando Macala foi preso em plena ditadura por cantar ao vivo o forró safado e sem vergonha “Sim ou não”, do disco “Contrastes”. Quem o acompanhou na viatura policial foi nada mais, nada menos do que Moreira da Silva, quase na alcunha de Kid Morengueira, para tentar aliviar a barra do amigo. Mas não adiantou muito. O bom é que, passado o perrengue, o jeito é se divertir com as lembranças. E estão todos convidados para essa alegria: tudo com direito, é claro, a uma boa música.

