Nome Próprio, substantivo incomum

Festival - 08.10.2009

          Com o advento da internet, diferentes formas de manifestações artísticas se renovaram. Isso aconteceu com a música, a fotografia, o audiovisual e também com a tradicional literatura. Blogs, sites e outras tendências tecnológicas afetaram profundamente nossa escrita, que se afinou melhor com a correria dos novos tempos.

          Um dos primeiros nomes a se destacar neste novo contexto das letras no Brasil foi o da escritora gaúcha Clarah Averbuck, idólatra assumida de Charles Bukowski e que, como o seu “tutor”, também não tem escrúpulos em explanar sua agitada vida boêmia. Uma das diferenças entre os dois foi o suporte: ao invés de publicações, Clarah se expressa para o mundo primordialmente através dos teclados de seu computador.

          Esses textos correram um caminho diferente, mas também viraram livro: “Máquina de Pinball”, lançado em 2002 pela Conrad Editora. Depois da adaptação para o teatro, só faltava a telona do cinema. Foi então que o veterano Murilo Salles se inspirou e apresentou o longa “Nome Próprio”, baseado nos escritos de Clarah. O resultado não poderia ter ficado mais pungente, não só pela estrutura do roteiro e pela ótima câmera feita pelo próprio cineasta, mas principalmente pela atuação arrasadora de Leandra Leal. Quem a viu como a frágil menininha de trabalhos anteriores vai se surpreender com a encarnação da atriz no personagem, que não teve qualquer tipo de pudor em sua entrega.

          Com uma estrutura de história pouco convencional, “Nome Próprio” vai costurando o conturbado dia-a-dia de Camila (alter-ego de Clarah) em seus relacionamentos frustrados, porres homéricos e encontros casuais. Ou seja, nada muito diferente do cotidiano noturno das grandes cidades, porém levado mais a fundo e com algumas doses de vodka a mais. Camila é uma versão hiperrealista da Rê Bordosa (a assassinada personagem dos quadrinhos de Angeli), mas sem muito direito a gags e happy ends nos fins das histórias. Dona de uma sensibilidade à flor da pele, Camila avalia com sacadas geniais os seus contratempos em tudo que escreve. Quem ver o filme – ou ler o livro – ou ler o blog – verá.